Meridiano
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C1 · fiction

O Último Turno

The Last Shift

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Na noite em que cumpriria seu último turno, Raimundo chegou à fábrica uma hora mais cedo, coisa que não fazia desde o nascimento da primeira filha. O ônibus atravessou a cidade ainda acesa — Manaus nunca apaga de verdade, apenas baixa o fogo — e ele foi olhando pela janela as ruas que conhecia de cor e que, a partir do dia seguinte, não teriam mais nada a ver com ele. Trinta e dois anos montando aparelhos de televisão para o resto do país assistir.

Ele viera do interior do Maranhão em 1991, atraído pelas histórias que um primo contava sobre a Zona Franca: emprego com carteira assinada, hora extra, décimo terceiro. O primo exagerava, como todo recrutador informal, mas não mentia. A fábrica pagou a casa, criou três filhos, enterrou a esposa quando o plano de saúde já não podia fazer mais nada. Raimundo sabia o que devia àquele galpão e sabia também o que o galpão lhe levara: as madrugadas, a audição do ouvido esquerdo, certa pressa nos gestos da qual nunca mais conseguiria se livrar.

Os colegas mais jovens o tratavam com a reverência distraída que se dedica aos móveis antigos. Chamavam-no de enciclopédia, porque ele diagnosticava de ouvido o defeito de uma esteira, e riam, sem maldade, da sua mania de guardar parafusos no bolso da camisa. Nenhum deles planejava ficar trinta anos; falavam em cursos, concursos, aplicativos, numa vida em que a fábrica fosse apenas uma estação, não o destino. Raimundo os escutava e não sabia se sentia pena ou inveja — provavelmente as duas coisas, em horários alternados, como os turnos.

À meia-noite, o supervisor desligou a linha por três minutos, contra todas as regras, e o pessoal se juntou em volta de um bolo de cupuaçu comprado na vendinha da esquina. Houve discurso atrapalhado, aperto de mão, uma vaquinha que rendeu um relógio — ironia que ninguém pareceu notar: dar um relógio a um homem que finalmente ia parar de contar as horas. Raimundo agradeceu com a voz curta e voltou ao posto antes que a emoção fizesse dele assunto.

Quando a sirene das seis tocou, ele bateu o ponto pela última vez e ficou um instante segurando o cartão, leve como uma coisa morta. Lá fora, o dia nascia abafado, com cheiro de rio por cima da cidade. Pensou na rede que o esperava na varanda, no peixe que pescaria sem pressa, na neta que prometera buscar na escola todas as tardes. Atravessou o portão devagar, e se alguém o visse de longe diria que era um homem indo embora; ele, por dentro, tinha quase certeza de que estava chegando.