C1 · fiction
As Primeiras Chuvas
The First Rains
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O céu sobre o sertão de Pernambuco tinha a cor de osso havia onze meses. Seu Abílio acordava antes do sol não por esperança, mas por hábito, e percorria o terreiro como quem confere as feridas de um corpo conhecido: o açude rachado, o gado em osso e couro, as cercas que já não cercavam coisa alguma. A seca não chega de uma vez; vai se instalando devagar, como visita que ninguém convidou e que, de tão demorada, acaba virando da casa.
Os filhos tinham partido um a um, levados pelo mesmo vento seco que levava tudo. O mais velho dirigia ônibus em São Paulo; a do meio cuidava de idosos em Salvador; o caçula mandava notícias curtas de uma obra em Brasília, sempre prometendo que voltaria quando juntasse o suficiente. Abílio guardava as mensagens no celular como quem guarda retratos, embora respondesse com meia dúzia de palavras, que conversa de homem velho é mais silêncio do que frase.
A mulher, Donana, era quem sustentava a teimosia dos dois. Tinha um jeito de enxergar fartura onde havia escassez: do mandacaru tirava doce, da palma tirava ração, e do silêncio do marido tirava conversas inteiras, respondendo às perguntas que ele não fazia. Quando o agente da prefeitura sugeriu, com toda a delicadeza burocrática, que o casal se inscrevesse num programa de realocação, ela agradeceu o café que ele nem tinha tomado e disse que raiz não anda.
Em março, quando já ninguém falava nisso para não estragar, o vento mudou. Veio primeiro o cheiro — terra molhada em algum lugar distante, o perfume mais antigo do mundo —, depois o trovão, e por fim a chuva propriamente dita, grossa, atrevida, tamborilando no telhado como um bando de meninos descalços. Abílio saiu para o terreiro e ficou de braços abertos, sem cerimônia, deixando a água escorrer pelo chapéu, pela camisa, pelos sessenta e oito anos.
Choveu três dias, com intervalos para o céu respirar. O açude não encheu, mas criou um espelho d'água onde as estrelas voltaram a se enxergar; o mato, que parecia morto, amanheceu verde com uma pressa quase indecente. Donana plantou feijão, milho e coentro, calculando as luas como a mãe lhe ensinara.
O caçula ligou no domingo, perguntando da chuva, e Abílio, contrariando a própria natureza, falou por dez minutos seguidos. Descreveu o açude, o verde, o feijão que despontava. Do outro lado, o filho ficou um tempo calado, e o velho entendeu o que aquele silêncio queria dizer, porque era o seu próprio silêncio, herdado como se herda o nome. Antes de desligar, o menino disse apenas: se chover de novo no ano que vem, pai, eu volto. No sertão, aprende-se cedo que toda promessa é uma oração — e Abílio, que não rezava, passou a olhar o céu duas vezes.