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B2 · nonfiction

Brasília: A Cidade que Nasceu de um Risco

Brasília: The City Born from a Sketch

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Em 1956, o presidente Juscelino Kubitschek prometeu algo que parecia delírio: construir uma capital nova no meio do Planalto Central, onde havia apenas cerrado e poeira. O plano não era novo — a ideia de levar a capital para o interior constava na Constituição desde o século dezenove —, mas ninguém tinha tido a coragem, ou a pressa, de executá-lo. Juscelino prometeu que a cidade ficaria pronta antes do fim do seu mandato: cinquenta anos em cinco, dizia o slogan.

O urbanista Lúcio Costa desenhou o Plano Piloto em poucas folhas de papel, com o traçado de um avião — ou de uma borboleta, como ele preferia dizer. Oscar Niemeyer projetou os palácios de concreto branco e curvas que pareciam desafiar a engenharia. Quando os críticos diziam que aquilo era caro demais, Juscelino respondia que o Brasil não podia continuar de costas para o próprio território.

A cidade oficial, porém, não se construiu sozinha. Dezenas de milhares de trabalhadores, vindos sobretudo do Nordeste, ergueram Brasília em turnos que atravessavam a noite. Ficaram conhecidos como candangos. Muitos contavam, anos depois, que dormiam em alojamentos de madeira e que trabalhavam sob a luz de holofotes para que o prazo fosse cumprido.

Em 21 de abril de 1960, Brasília foi inaugurada com missa, desfile e fogos. A capital funcionava, ainda que pela metade: faltavam prédios, árvores e sombra. Os funcionários públicos transferidos do Rio de Janeiro reclamavam da secura do ar e da falta de esquinas. Dizia-se, na época, que a cidade era boa para trabalhar e impossível para viver.

Mais de sessenta anos depois, Brasília segue dividindo opiniões. É patrimônio mundial da Unesco e, ao mesmo tempo, símbolo de um país que decide seu destino longe da maioria. Os candangos, que vieram para construir e ficaram para morar, criaram ao redor do Plano Piloto as cidades-satélites onde hoje vive a maior parte da população. A capital planejada acabou cercada pelo Brasil que não estava nos desenhos — e talvez seja isso o que a torna, finalmente, uma cidade de verdade.