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B2 · fiction

O Bloco da Ladeira

The Bloco on the Hill

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Quem vê o carnaval de Olinda pela televisão imagina uma festa que simplesmente acontece, como se brotasse das ladeiras por conta própria. Neide sabe que não é assim. Há vinte e três anos ela organiza o Bloco da Ladeira, um cordão pequeno que desfila na terça-feira de manhã, quando os turistas ainda estão dormindo. O bloco é dela como uma filha é de alguém: dá trabalho o ano inteiro e alegria numa manhã só.

Os preparativos começam em agosto. É preciso encomendar o estandarte, ensaiar a orquestra de frevo e negociar com a prefeitura cada metro do percurso. Quando chegar janeiro, já não haverá tempo para nada: janeiro é só correria e dívida. Neide costuma dizer que, se o bloco desse lucro, ela desconfiaria de que algo estava errado.

Este ano, porém, a coisa apertou. O patrocinador de sempre, uma loja de material de construção, avisou que não poderia ajudar. O dono explicou que as vendas tinham caído e que talvez voltasse a apoiar no ano seguinte. Sem esse dinheiro, não haveria fantasia nova nem cachê para os músicos.

Foi a filha de Neide quem sugeriu uma vaquinha pela internet. Neide torceu o nariz: achava esquisito pedir dinheiro a estranhos para uma festa de rua. A filha respondeu que não eram estranhos, eram pessoas que amavam o bloco e tinham se mudado de Olinda. Em duas semanas, ex-moradores espalhados por São Paulo, Lisboa e até Toronto mandaram mais do que o patrocinador costumava dar.

Na terça-feira de carnaval, o bloco desceu a ladeira com o estandarte novo brilhando ao sol. Neide desfilou na frente, séria como um general, conferindo cada detalhe. Só se permitiu chorar quando a orquestra atacou o último frevo. Se tudo der certo, pensa ela, quando ela não estiver mais aqui, a filha assumirá o cordão. O carnaval dos turistas dura quatro dias; o dela, a vida inteira.