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B1 · fiction

O Violão do Meu Pai

My Father's Guitar

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Meu pai nunca foi homem de falar muito. Na nossa casa em Ouro Preto, o silêncio dele ocupava a sala como um móvel pesado. Mas havia um violão pendurado na parede, e às vezes, depois do jantar, ele o pegava sem dizer nada. Era assim que a gente sabia que ele estava feliz, ou triste, ou com saudade.

Ele tocava as músicas do Clube da Esquina: Milton Nascimento, Lô Borges. Dizia que aquela música tinha nascido ali mesmo, nas montanhas de Minas. Eu, adolescente, achava tudo aquilo antigo e meio cafona. Queria que ele gostasse das bandas que eu ouvia, mas nunca tive coragem de mostrar.

Briguei com meu pai aos dezenove anos, por motivos que hoje me parecem pequenos. Fui embora para Belo Horizonte e fiquei dois anos sem voltar. A gente se falava por telefone, em conversas curtas sobre o tempo e o futebol. Minha mãe pedia que eu voltasse, nem que fosse só num feriado.

Quando finalmente voltei, encontrei meu pai mais velho, mais magro, mais calado ainda. No segundo dia, sem que ninguém pedisse, ele tirou o violão da parede. Tocou uma música que eu não conhecia e disse que era nova. Aos sessenta anos, meu pai ainda compunha, e eu não sabia.

Hoje o violão está na minha casa, em Belo Horizonte. Eu queria que ele tivesse me ensinado a tocar, mas nunca pedi. Aprendo sozinho, devagar, com vídeos na internet. Quando acerto uma música do Milton, é como se a sala ficasse menos silenciosa.